sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Antes que o ano acabe...

... e eu perca novamente a conta dos dias! que cai do meu bolso junto com outras coisinhas.

Agora, tenho que escrever para me lembrar que hoje é.. sexta-feira, dia? hum, dia 18 de dezembro. Nossa! Dezembro já?? Já está indo, acabando... Ai.
Mas parece que está tudo bem... Desde um tempo (ia escrever "desde alguns meses", mas ai pensei se realmente é essa a quantidade certa de tempo ou se por acaso estaria equivocada. então tentei pensar num tempo estimativo, mas ai.. já não sei quanto tempo..), quer dizer, pensando bem, desde a primeira semana de novembro - é, é isso mesmo! agora sei porque sei que até esse dia eu tinha que obrigatoriamente ter noção exata dos dias e principalmente dessa semana, a primeira de novembro. depois do começo de novembro me perdi no tempo.
(Parágrafo recuperado)
Então, como estava dizendo, desde um tempo, mais ou menos um mês e meio, eu me perdi no tempo.
Tive essa abertura - agora, nesse momento - de lucidez. Agora sei realmente, de fato, em qual dia estou.
A questão não era de não se lembrar, simplesmente. A questão passou a ser a de não conseguir se lembrar e não conseguir querer se lembrar ou ter força suficiente para se lembrar. De não ter o mínimo interesse em lembrar o dia do mês e da semana. Como se tudo fosse um eterno contínuo.
A semana sem fim e sem começo. O mês que não acaba, ou que é tudo um só mês.
De repente, pra mim estava assim, tudo era a mesma coisa.
Entrei em outra contagem do tempo: a não contagem do tempo.
Perdi mesmo a noção de que se tem hora pra dormir, e com isso percebi que a hora de dormir é um importante marcador temporal, quase inconsciente.
Eu estava dormindo a qualquer hora. Ou melhor, estou dormindo a hora que me dá sono, a hora que decido dormir. Não troquei o dia pela noite, como já é bem conhecido e como também é um hábito bastante criticado.
Simplesmente durmo quando quero. A qualquer hora.
Bom, isso também não é pra qualquer um, afinal quem tiver problemas com o sono, insônia, etc, não coneguirá acordar às 8:00 da manhã, dormir de novo às 11:00 e acorda às 14:00 e depois disso bocejar de sono o resto da tarde até não ver a hora de cair na cama novamente. E não que isso seja uma rotina, pois se acorda às 4:00 da madrugada, surge uma vontade de fazer algo útil, se faz algo útil, depois essa utilidade te desgasta tanto que já é hora de dormir de novo. E ai se levanta às 7:00. Acabou o sono. Ai vem as 15:00 toda sonolenta pedindo colo, o colo do travesseiro, e então, quem resiste? Lá se vai até as 18:00 ou 19:00. E depois... bom, depois continuam-se as horas e o sono fazendo intervalos um com o outro e me mantendo viva. Ora de olhos abertos, ora de olhos fechados.

É engraçado o quanto isso me faz perder a noção do tempo.
Durmo em um dia e de repente acho que é outro, mas não é, o calendário mostra que é o mesmo dia ainda. Ai, quando penso que não, estou em um outro dia e pra mim essa passagem não significou nada de especial. Não mudou nada.
Quem precisa dessa marcação? Já fiquei pensando nisso... 
rs..

E é um absurdo pra mim ouvir as pessoas dizendo "boa noite, amanhã é um novo dia", ou "boa noite, estou cansada e amanhã é cedo", ou então "dormir porque amanhã é um dia normal, como todo dia",  pior ainda "vai dormir menina, senão amanhã você não acorda".
Hum?
Mas, quando me dizem isso eu lembro de olhar no relógio. Olho e penso, "novo dia? daqui a algumas horas ela vai se levantar e isso será um novo dia? só porque ela dormiu? e eu se ficar acordada até a hora em que ela levantar eu verei o novo dia chegar? e por que "vai dormir menina, senão amanhã você não acorda"? e se eu dormisse 24hrs seguidas, não seria um dia inteiro?"
Ah, um dia tem 24 hrs. Mas, se eu durmo das 14:00 hrs do dia 20 e acordo às 15:00 do dia 21 eu não terei dormido 1 dia, terei dormindo 2. Que coisa não? Pelo menos é assim que todo mundo considera.
E se eu faço como faço desde a primeira semana de novembro, durmo a hora que quero, as pessoas dizem "está com problemas pra dormir?" Não! Por que estaria? Porque não durmo a noite? Ou porque não troco o dia pela noite?

Enfim, nem ligo para elas, basta fechar os olhos e dormir. Nem ligo porque a melhor parte é dormir. Elas são um saco! Tadinhas. Acho que "um saco" sou eu. Então, nada melhor que dormir!
Você não causa preocupação a ninguém porque não está longe, na rua, ou sabe-se lá deus onde!; você não ouve reclamações, porque está dormindo; você não precisa ficar conversando com ninguém e sorrindo para as pessoas ou, pior que isso, puxando assunto; você não tem que fazer nada e ninguém está muito preocupado com isso, pois não é que você só dorme, você produz e faz as coisas como sempre fez, só que em horários diferentes; e os outros também não precisam ficar te olhando e te aguentando.
Se sentirem saudade, basta ir ao quarto devagar, pé sobre pé - por favor, não me acorde! - e me olharem. Ai vão dizer, ou pensar, "dorme como um anjo", ou "parece um anjinho dormindo". Essas coisas que os pais, parente e amigos dizem quando a criança está dormindo, que se traduzem como: "Que bom, ela está dormindo. Está quieta e não me enche o saco. Assim fica até bonitinha!"  Hahahahaha..

Pois é. por isso perdi a noção do tempo. Pra mim é um contínuo enterno no qual não vejo marcação alguma.
Tanto faz se hoje, amanhã, depois, ontem.
Cai no abismo temporal. e só existe um dia.

Sou um cronópio.



"Quando os cronópios cantam suas canções preferidas, ficam de tal maneira entusiasmados que frequentemente se deixam atropelar por caminhões e ciclistas, caem da janela e perdem o que tinham do bolso e até a conta dos dias."

Costázar

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um mês - Intervalo

Cinco meses.

"A casa estava arrumada. Do jeito que ele gostava. Havia passado a tarde dedicando-se a tirar o pó impregnado dos móveis, limpando os porta-retratos, esfregando o chão de suas imundícies até sentir que as mãos estavam trêmulas e não obedeciam mais. Tomou cuidado para que cada canto, cada entrada e cada saída ficasse impecável. A casa não era grande, mas depois de todo lixo expulso, parecia maior. E agora, quase imaculada não fosse a presença dela, a casa era só solidão. Porque até a sua presença estava cheia de solidão. E ela esperava, torcendo as mãos e observando as luzes da rua, a chegada dele. Sabia que seria intempestiva, por isso arrumava a casa, uma, duas, três vezes, para que ele pudesse despejar sua bagunça.




Era assim sempre.



A casa pronta, as três batidas, ela saltava do sofá e abria a porta. Tudo se modificava. A casa branca enchia-se novamente. As cores trazidas por ele riscavam o chão, a mesa, a janela, o quadro, o teto, a cama, o tapete, os lençóis. Quase cegando-a.



Já na porta, os pedaços de seu desarrumado começavam a ficar pelo chão. Ela apenas dava passagem para ele pudesse entrar e observava a poeira deitando novamente sobre os móveis.



Era como um vento.



As folhas de papel cuidadosamente empilhadas na escrivaninha saltavam e eram levadas para fora da janela. Um a um os porta-retratos estilhaçavam-se no chão. Não era mais só uma casa, era um emaranhado de palavras, sons, luzes e visões desconexas. E ele agigantava-se vertiginosamente aos olhos dela.



Ouvia o som dos vidros serem quebrados longinquamente, de lençóis sendo rasgados e sentia o cheiro da lama misturado ao cheiro das rosas esmigalhadas. Havia uma brusquidão nos gestos, que a cada movimento acertavam-lhe um soco no estômago, mesmo sem tocá-la.



Ele nunca a tocava.



Ao mesmo tempo, havia certa suavidade na voz, como que parecida com uma carícia sutil. Seus olhos sugavam-na, chamando a misturar-se a ele, a compartilhar da desordem das coisas. Aquela desordem que parecia imiscuir-se nele.



Por um segundo, apenas e somente por um segundo, que ficava suspenso no ar, ela deixava-se mergulhar, e neste segundo podia ver caleidoscópios rodopiando, portas que se abriam estrondosamente, vozes misturadas, e mãos de mil cores tocando-a.



Então ela se dava conta de que ele era feito disso, ele era isso. A desordem das coisas, as mil cores, as mil vozes, as mil portas. E o aceitava como quem aceita uma criança em seu ventre.



— Eu te aceito. Te aceito. — as únicas palavras no meio daquela noite, ditas sem deixar escorrer um único som.



Agora ele estava dentro dela, correndo por suas veias, atravessando suas conexões nervosas e remexendo suas entranhas, pulsante, pulsante.



Ela era a casa. A casa que ele desarrumava. Deixando em cada pedaço de espaço, o pó viscoso de sua imensidão. E dentro dela ele se arrumava e reconstruía cada parte sua.



Abandonava ali, a lama e a brusquidão, para se tornar suave, quase harmonioso outra vez.



Ela ouvia então um grito quase mudo que se esforçava para sair da garganta de alguma coisa. E como num parto, ela o expulsava de si, como num parto que faz nascer, brotar, jorrar.



Ele nascia novamente, limpo, puro de todas as durezas, pecados e da loucura suja – nem toda loucura é suja, assim como nem todo mal é ruim – para sair pela porta e deixá-la novamente sentada no sofá, as mãos se torcendo e os olhos espiando as luzes da rua.



Ele havia partido, estava sozinha. Ela e casa, que já não era mais ela. As cores apagadas e o silêncio. A casa que ela tinha que arrumar. Pois sabia que ele viria novamente no outro dia."

Anne Luisa Nardi






Quatro anos.


"Vinha trazendo no coração uma mágoa antiga que só fazia doer. Não sabia o que fazer com ela. E como apertava... E como doía... Ficava ela ali no canto esquerdo, bem quieta. Dava os ares de sua graça nas horas mais impensáveis. E como manchava... E como mexia... Pulava no peito como bola desgovernada que desce a ladeira sem olhar para os lados. Queria esquecê-la. Queria traí-la. Trancá-la lá fora sem pena da chuva. Deixando-a molhar como pano de porta, que sem borda aos poucos se encharca. Queria poder juntá-la com as mãos e com desespero de marujo perdido, arrancá-la para fora do barco. Deixá-la à deriva em companhia das ondas. Ela que se salvasse. Que se afogasse lentamente na imensidão fria dos mares. De longe eu acenaria em meu iate invencível, lamentando por não ter feito isso há mais tempo. Feliz por ter extirpado todo o tumor. Chegaria em casa tranqüila, talvez cansada da viagem. Tomaria uma Novalgina e iria cheia de graça pra cama. Sonharia com cores impossíveis e palavras ainda perdidas. Acordaria plena. Descansada. Completamente feliz. Escreveria meus versos roubados do invisível e ouviria os sons capturados do mundo. Prosseguiria vivendo a procura do irreal e do permitido. E seria feliz se não fosse a falta que se alojaria no peito clamando pela mágoa uma vez perdida, a reclamar junto com a lua sua ausência."

Alice Venturi


E ai se foi um mês, e ainda é dois mil e nove.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Alucinação

Eu não estou interessado em nenhuma teoria,
em nenhuma fantasia, nem no algo mais.
Nem em tinta pro meu rosto
ou oba oba, ou melodia
para acompanhar bocejos
sonhos matinais...



Eu não estou interessado em nenhuma teoria
nem nessas coisas do oriente
romances astrais.
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia.
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...



Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...



Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!...



Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
"Play it cool, Baby"
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...



Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais...



Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...



Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!...



Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
"Play it cool, Baby"
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...



Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais...



Belchior
 
 
Como sempre, incrível e simples.
Tudo o que é comum - talvez só pra mim: essa música e Belchior!
Ai, ai, essas terças...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Eu, feita de azul..

"Chore, querida. Hoje o dia precisa ser lavado por lágrimas derrubadas de olhos tão gentis, provocadas por sentimentos sinceros e sensações eternas. Então, chore. Lave o céu cinza do inverno e transforme tudo num raio de sol colorido, que consiga alcançar todos em quem você pensa hoje.


Aproveite o teu dia, e faça o que quiser, até mesmo chorar. Ele vai demorar mais um ano pra chegar de novo, e até lá as lágrimas não terão a mesma cor que tem hoje."


palavras lindas escritas por M.




Eu,










que sou feita de azul!


domingo, 8 de novembro de 2009

Eu e o Trem Azul

Tudo o que ainda há de vir
É tão pequeno quando se quer unir
A pergunta surge
Alguém às vezes a responde

Mas com um sol na cabeça
Uma folha jovem na mão
Olho no ar uma pena
E tudo se perde na imensidão

Nesta cena passa a nuvem
Passa a montanha, corre o trem
No espelho sou o que fica
Eu e minha imaginação tão rica

Achando-me um bobo desde então
Iludido num mundo cru
num banco de estação
ainda esperando pelo Trem Azul

Pablo

sábado, 7 de novembro de 2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Eu sinto tanto por isso - I

=|

Essa estranheza da vida, que a qualquer momento deixa de ser vida, me assusta cada dia mais.

E eu sinto tanto por isso.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Uma estranha

Vida, vida... quão estranha é você?
Quão estranha você pode ser que, em um instante se vive e daqui a pouco se morre?
Como pode...? como posso me sentir tão viva se daqui a pouco mais um morre?
Se alguém do meu lado deixa a vida no mesmo instante de vida que cresce a minha?
Se toda a sua dubiedade volta e me aparece?  ...tão frágil você.
E esse nó na garganta.
Por que?

Isso dói. Já sei que dói. Fére, machuca.
Começamos pelo final. Enterramos nossos amigos.
Se a ordem "natural" seria crescer, casar, ter filhos e depois enterrá-los. E depois morrer.
Estamos do aveso, então.
Começamos nos enterrando.

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.



- - -



Só.
As vezes amanheço, e minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui eu te amo.

Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.

Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta..
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.

Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento,
querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre.

Pablo Neruda

sábado, 31 de outubro de 2009

Queria ter uma bicicleta.