Quando penso em parar de escrever, parar de estudar e sair, curtir a tarde, algum caso, ver novelas bobas ou até ir ao cinema, sinto algo que me prende.
Conversar, ver vitrine, ter um namorado, se importar sobre cabelo, unhas, maquiagem, manter a forma - estrita forma! - magra e de "mulherão", fazer as sobrancelhas, ser amorosa, cuidadosa, atenciosa, meiga e dócil, (ops!) quer dizer, ser doce.
Mas tão nova, não tem interesse em sair, não quer conhecer gente nova, arranjar um namorado - e mantê-lo!, não pensa em casar, ter filhos...
Quando não estuda faz coisas estranhas, não se socializa, sempre os mesmos amigos, os mesmos lugares, e em casa por gostar de estar em casa sendo solteira e jovem???
Isso é uma loucura!
Poderia, bem que poderia, mas não cabe.
Não é isso que eu quero. Não é isso que está aqui dentro de mim, chamando minha atenção.
Esse tempo, tempo inútil, perdido fazendo coisas que não me agradam; que agradam os outros.
Me controlar em um acesso de fúria, de raiva. E a mais sincera irritação? Não, não.
Pra ser meiga, doce e passiva? Ah, passiva! Não, não sou passiva.
E isso destrói os seus castelos de areia construídos a minha volta.
Isso destrói as imagens que você fez de mim.
Eu destruo o que você procura em mim.
Desculpe, meu bem, mas sou mais do que você pensava em ter, e aí está o por quê de sua admiração;
e sou mais do que você queria ter, e aí você entra em choque porque existem tantas coisas em mim que são inconciliáveis e que não cabem no sonho perfeito do amor, onde eu, a mulher, sou a que abro mão, a que sempre cede.
Sim, gosto de unhas grandes e de cores nelas. Gosto dos cachos que saltam da minha cabeça.
Mas que fique claro que isso é gostar e que é meu, não seu, não de um mundo masculino que fecha as minhas pernas e as cruzam como sinal de bem lacrado.
Desse mundo masculino que olha para as minhas saias e dizem ser curtas demais, afinal, "Que mulheres usam saias curtas? Você até estuda!"
Meu bem, não me mande trocá-las. Não exerça em mim os seus comandos masculinos, com a sua voz grave e séria, pesada.
Não é assim a voz masculina?
E a feminina? Histérica?
Talvez.
E é aí que não consigo ficar longe do teclado e dos livros. Realmente, é pra isso que eu "até" estudo.
Para retirar essa concepção de feminilidade passiva e dócil - dócil sim, como um animal a ser domesticado.
Para desconstruir o que falam de mim em um mundo machista e masculino.
Estou deslocando você.
Transgrido normas, comportamentos, pensamentos; enquanto que outros eu aceito de bom grado. E isso, isso meu bem, te deixa louco!
Sem entender o que está acontecendo. Sem saber se me amaldiçoa, ou se me beija.
Sou progenitora e portadora da vida. Sou eu quem a continuo, quem carrego essa possibilidade dentro de mim.
Mas, olha só, não há mais ciclos menstruais, nem TPM's nervosas e depressivas, nem a lembrança dessa fecundidade todos os meses.
Não há.
O que há, então?
Há dias com níveis estáveis de hormônios circulando pelo meu corpo.
O que houve?
Houve a decisão, minha, de não querer me lembrar da possibilidade de vida que levo.
Houve a vontade de sentir raiva apenas porque o mundo me enraivece constantemente.
E de dizer, mesmo sem essa marca maior das mulheres: Eu sou uma mulher! Isso também é ser mulher!
É por isso que sento e fico horas escrevendo e lendo. Vendo o corpo da escrita se formar lentamente.
Livros como torrentes, ideias e teorias "nem sempre producente".
O caos desta mesa, o amontoado de letras.
Ao lado, peças pintadas, desenhos, gestos e fisionomias congeladas.
De repente, levanto-me, pego um copo d'água e ando pela casa.
É uma falta de lugar.
"A mulher se pergunta quantas vidas seriam necessárias para se fazer tudo. Ler os livros necessários, amar os amores felizes, gozar os corpos agradáveis, dizer as palavras certas, escrever a tese inevitável, elucidar as dúvidas e justificar escolhas, ser mal compreendida, sofrer as perdas irrecuperáveis, mudar o cabelo de vez em quando, entender o que deve ser entendido, fazer-se entender no que deve ser entendido."
E eu respondo: uma.
"É necessário reconhecer o prazer de fazer o que faz, mesmo que em alguns momentos seja penoso, o corpo cansado das longas horas e das longas páginas nem tão longas assim. Estar acordada enquanto todos dormem. Conforma-se em ser uma adiadora. P/rever a percepção de seus caprichos. Acadêmicos. Outros. É necessário saber que uma outra cidade antiga/nova/insuspeita a espera e espreita de dentro de sua longínqua existência."
Com a participação de Luciana Borges, entre as aspas.
"A aurora em que os abraços se soltam é semelhante a aurora em que morrem os revolucionários sem revolução."
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
o coração vive das sombras de uma aroma. ...esse iludido
Provavelmente porque o ser se intranquiliza
de já não ser o que ia sendo; intensamente,
porque as fogueiras de um martírio impenitente
são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza;
e finalmente porque tudo o que agoniza
quer promulgar, solenizar o impermanente,
o coração, naquele fundo ambivalente
da coisa humana, momentâneo como a brisa,
mas persuadido de que as músicas da mente
hão de reter do ser mais do que uma soma,
o coração vive das sombras de um aroma.
Só muito raramente esse iludido sente
a força de acordar antes que a luz cadente
o deixe louco como à mosca na redoma.
Bruno Tolentino
de já não ser o que ia sendo; intensamente,
porque as fogueiras de um martírio impenitente
são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza;
e finalmente porque tudo o que agoniza
quer promulgar, solenizar o impermanente,
o coração, naquele fundo ambivalente
da coisa humana, momentâneo como a brisa,
mas persuadido de que as músicas da mente
hão de reter do ser mais do que uma soma,
o coração vive das sombras de um aroma.
Só muito raramente esse iludido sente
a força de acordar antes que a luz cadente
o deixe louco como à mosca na redoma.
Bruno Tolentino
mas... eu amo la trama más que el desenlace.
te vi cambiar tu paso,
hasta ponerlo en fase,
en la misma fase que mi proprio paso...
...amar la trama más que el desenlace.
jorge drexler
hasta ponerlo en fase,
en la misma fase que mi proprio paso...
...amar la trama más que el desenlace.
jorge drexler
quando as mãos se desprenderam,
braços me carregaram.
quando o abraço se soltou,
uma ciranda em volta de mim se formou.
quando a dor me tirou o sono e a respiração,
outros sonos foram tirados e mais olhos vigiavam comigo os amanheceres.
quando o amor não suportou,
a amizade me encontrou e firme me segurou.
às vezes entramos em um mundo cheio de ilusão.
pobre de mim, coração, que não soube ser ilusório.
pobre de mim, corpo, que ficou frio e ressecado.
pobre de mim, mente, presa em suas lembranças confundidas com a imaginação.
amores, amores, amores...
braços me carregaram.
quando o abraço se soltou,
uma ciranda em volta de mim se formou.
quando a dor me tirou o sono e a respiração,
outros sonos foram tirados e mais olhos vigiavam comigo os amanheceres.
quando o amor não suportou,
a amizade me encontrou e firme me segurou.
às vezes entramos em um mundo cheio de ilusão.
pobre de mim, coração, que não soube ser ilusório.
pobre de mim, corpo, que ficou frio e ressecado.
pobre de mim, mente, presa em suas lembranças confundidas com a imaginação.
amores, amores, amores...
terça-feira, 3 de agosto de 2010
...um peixe dentro do vento.
O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em seus braços?,
perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando
como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos
mares do sul.
Quero te contar que o oceano sobre isto:
que a vida, em seus estojos de jóias,
é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue,
tornou a pedra lisa, encheu a
água-viva de luz, desfez o seu nó,
soltou seus fios musicais de uma
cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos
olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude
do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando
as estrelas sem fim e em minha rede,
durante a noite acordo nu. A única
coisa capturada é um peixe dentro do vento.
Pablo Neruda
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em seus braços?,
perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando
como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos
mares do sul.
Quero te contar que o oceano sobre isto:
que a vida, em seus estojos de jóias,
é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue,
tornou a pedra lisa, encheu a
água-viva de luz, desfez o seu nó,
soltou seus fios musicais de uma
cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos
olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude
do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando
as estrelas sem fim e em minha rede,
durante a noite acordo nu. A única
coisa capturada é um peixe dentro do vento.
Pablo Neruda
Imutável...
Nesta claridade silenciosa e pálida
os vultos deslizam como sombras
no entanto nítidos e contornados
por um brilho que entontece o olhar.
Há uma distância incomensurável
entre nós. E dir-se-ia que
nenhum gesto é bastante para os atingir.
O tempo se fez distância.
Paralisado em transparência gélida
eu não mudei porém. Pelo contrário
é como se contido o ardor fosse maior.
E doloroso mais. Porque de antigamente
o não-ter e o perder ainda eram
certeza de atingir, senão de amor.
[...]
Jorge de Sena
os vultos deslizam como sombras
no entanto nítidos e contornados
por um brilho que entontece o olhar.
Há uma distância incomensurável
entre nós. E dir-se-ia que
nenhum gesto é bastante para os atingir.
O tempo se fez distância.
Paralisado em transparência gélida
eu não mudei porém. Pelo contrário
é como se contido o ardor fosse maior.
E doloroso mais. Porque de antigamente
o não-ter e o perder ainda eram
certeza de atingir, senão de amor.
[...]
Jorge de Sena
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Doce resquício
A tarde tomando seu café doce, extra doce.
Foi uma tarde gostosa, lenta e que embriaga.
Depois de sair da sua casa fui tomar outro café. Na verdade, fui jantar.
Mas depois do jantar tomei um café sem açúcar.
Ele me pôs novamente no meu eixo, como se me restituísse o meu ritmo.
E me desligou da tarde de hoje. Ela passou a ser, muito facilmente, uma lembrança distante, porque pareceu algo de fora, de outra época.
Três longos cafés doces, em uma tarde inteira.
Um breve café amargo, no final da noite.
O doce da tarde ficou raspando minha garganta, mas era de leve, parecia uma nostalgia. Aquele resquício que permanece quando o fato já passou.
Então, quer dizer...
Não, não como uma lembrança distante, mas como uma sensação de bem-estar, de prazer em passar a tarde.
E é como se o amargo do fim da noite me tornasse um pouco consciente do que aconteceu, me tirando desse estado prazeroso de embriaguez.
O amargo café, em outro ambiente, com outras pessoas...
Volto para casa.
Foi uma tarde gostosa, lenta e que embriaga.
Depois de sair da sua casa fui tomar outro café. Na verdade, fui jantar.
Mas depois do jantar tomei um café sem açúcar.
Ele me pôs novamente no meu eixo, como se me restituísse o meu ritmo.
E me desligou da tarde de hoje. Ela passou a ser, muito facilmente, uma lembrança distante, porque pareceu algo de fora, de outra época.
Três longos cafés doces, em uma tarde inteira.
Um breve café amargo, no final da noite.
O doce da tarde ficou raspando minha garganta, mas era de leve, parecia uma nostalgia. Aquele resquício que permanece quando o fato já passou.
Então, quer dizer...
Não, não como uma lembrança distante, mas como uma sensação de bem-estar, de prazer em passar a tarde.
E é como se o amargo do fim da noite me tornasse um pouco consciente do que aconteceu, me tirando desse estado prazeroso de embriaguez.
O amargo café, em outro ambiente, com outras pessoas...
Volto para casa.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Não consigo comer o mesmo tanto que vocês
É difícil não entrar no ritmo que me coloca o mundo.
Difícil não fazer parte do sistema.
Muitas pessoas não entendem o que faço e não conseguem ver ordem em minha vida.
Que ordem?
Ordem de quem?
Não.
Não estou em frente à televisão no horário das novelas e nem dos jornais noturnos.
Não, meus horários não me permitem estar em trânsito entre às 18:00 e 19:00.
Não, meu sono não segue um padrão regular como os ônibus desta cidade. Um intervalo noturno.
E não, principalmente a minha fome, minha vontade de comer, os horários do meu corpo não se reduzem especificamente ao meio-dia, sentada ao redor de uma mesa, comendo. Almoço: a principal refeição do dia.
Estou fora desse principal, não me encaixo.
Meu corpo não obedece a esses horários e de todas as imposições, e por mais terrível que isso possa parecer a você, essa foi a que eu nunca consegui me encaixar.
Estou fora dos almoços, fora dos desjejuns e dos jantares seguindo um cronograma de horas repetitivo e bem marcado. "As três refeições majoritárias para uma boa alimentação".
Meu sono segue os latidos da minha cachorra e os impulsos de cansaço do meu corpo combinado com cafeína.
Meus horários seguem o meu nível de produção escrita, que não são nunca previsíveis pois estão ligados às minhas emoções.
E minha fome segue apenas a minha vontade de comer.
Ela aparece quando bem entende e geralmente é tardia.
Ela não aceita qualquer comida e não se prende simplesmente a vontade de comer, até mesmo porque quase nunca sente fome.
Estou bastante fora do sistema.
Se perco o sono, fico 2 ou 3 dias lendo e escrevendo.
Com o cansaço, durmo o mesmo tanto seguido.
Esse é meu ritmo.
Isso é a falta de rotina.
Mesmo assim, sinto as forças coercitivas e quase todas inconscientes que tentam me colocar nos horários "saudáveis" de uma vida normal, com hora pra tudo.
Mesmo assim, me habituei aos olhares e às expressões de espanto tentado entender como ainda consigo viver.
Mesmo assim, já sei os conselhos que me dirão sobre a saúde e sobre a velhice; sobre o tempo e sobre uma vida "tranquila".
Mas quem disse que não tenho uma vida tranquila?
E quem disse que quando faço as refeições dentro do padrão eu fico "saudável"?
Se enganam todos vocês.
Eu entendo e considero o espanto de muitos, ainda é inconsciente e sincero por terem sido tão bem moldados dentro do que é o "normal" ao ponto de não conseguirem entender outras formas de vida.
Fácil? Bem, nem tanto.
Pois de qualquer forma, estar fora do padrão nunca é mais fácil do que estar dentro.
Só que não consigo comer o tanto de vezes que vocês comem.
E não estou pensando em ordem quando deixo o meu corpo dizer o que ele quer, ao invés de empurrar-lhe comida e sono e um ritmo que não é dele.
A minha vida não depende de uma ordem externa, como a de vocês, como é fazer parte do sistema.
A minha vida depende de uma ordem interna.
E assim, vivo bem.
Difícil não fazer parte do sistema.
Muitas pessoas não entendem o que faço e não conseguem ver ordem em minha vida.
Que ordem?
Ordem de quem?
Não.
Não estou em frente à televisão no horário das novelas e nem dos jornais noturnos.
Não, meus horários não me permitem estar em trânsito entre às 18:00 e 19:00.
Não, meu sono não segue um padrão regular como os ônibus desta cidade. Um intervalo noturno.
E não, principalmente a minha fome, minha vontade de comer, os horários do meu corpo não se reduzem especificamente ao meio-dia, sentada ao redor de uma mesa, comendo. Almoço: a principal refeição do dia.
Estou fora desse principal, não me encaixo.
Meu corpo não obedece a esses horários e de todas as imposições, e por mais terrível que isso possa parecer a você, essa foi a que eu nunca consegui me encaixar.
Estou fora dos almoços, fora dos desjejuns e dos jantares seguindo um cronograma de horas repetitivo e bem marcado. "As três refeições majoritárias para uma boa alimentação".
Meu sono segue os latidos da minha cachorra e os impulsos de cansaço do meu corpo combinado com cafeína.
Meus horários seguem o meu nível de produção escrita, que não são nunca previsíveis pois estão ligados às minhas emoções.
E minha fome segue apenas a minha vontade de comer.
Ela aparece quando bem entende e geralmente é tardia.
Ela não aceita qualquer comida e não se prende simplesmente a vontade de comer, até mesmo porque quase nunca sente fome.
Estou bastante fora do sistema.
Se perco o sono, fico 2 ou 3 dias lendo e escrevendo.
Com o cansaço, durmo o mesmo tanto seguido.
Esse é meu ritmo.
Isso é a falta de rotina.
Mesmo assim, sinto as forças coercitivas e quase todas inconscientes que tentam me colocar nos horários "saudáveis" de uma vida normal, com hora pra tudo.
Mesmo assim, me habituei aos olhares e às expressões de espanto tentado entender como ainda consigo viver.
Mesmo assim, já sei os conselhos que me dirão sobre a saúde e sobre a velhice; sobre o tempo e sobre uma vida "tranquila".
Mas quem disse que não tenho uma vida tranquila?
E quem disse que quando faço as refeições dentro do padrão eu fico "saudável"?
Se enganam todos vocês.
Eu entendo e considero o espanto de muitos, ainda é inconsciente e sincero por terem sido tão bem moldados dentro do que é o "normal" ao ponto de não conseguirem entender outras formas de vida.
Fácil? Bem, nem tanto.
Pois de qualquer forma, estar fora do padrão nunca é mais fácil do que estar dentro.
Só que não consigo comer o tanto de vezes que vocês comem.
E não estou pensando em ordem quando deixo o meu corpo dizer o que ele quer, ao invés de empurrar-lhe comida e sono e um ritmo que não é dele.
A minha vida não depende de uma ordem externa, como a de vocês, como é fazer parte do sistema.
A minha vida depende de uma ordem interna.
E assim, vivo bem.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Génesis
De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.
Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.
Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!
Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.
Jorge de Sena
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.
Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.
Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!
Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.
Jorge de Sena
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Pequei
Eu pequei. Pequei o pecado original.
Então me arrependo
peço misericórdia a Deus.
Natureza pecaminosa
é a minha.
Não participo da santidade,
não estou entre os santos,
por isso, peço perdão.
Sou dos que tremem diante da glória.
Não sei ser santa, e
Senhor, como é difícil
tentar ser.
Sim, sou pecadora
e em mim jogam milhares de pedras.
Misericórdia, Senhor.
Misericórdia...
Só que não é você,
Senhor,
quem me joga pedras.
Elas não vem de cima, mas me atacam nas pernas
machucam
meus pés.
Algumas acertam na altura do tronco,
barriga,
seios
- os quais chamam imundos.
As pedras vem dos lados, Senhor.
São os outros quem atiram.
Estão do meu lado
em volta de mim.
De mim querem tampar minha vergonha
e querem também que eu não chore,
afinal, estão eles no direito deles de
reagir atacando
ao que é anormal, diferente,
ao que ninguém esperava
ou imaginava
ou entende.
O que eu fiz, Senhor?
Pequei.
Peço perdão.
Sou pecadora
e estou sangrando.
com as cicatrizes que não fecham
com machucados novos
- das pedras que me jogam -
que insistem em abrir.
Sou uma pecadora, Senhor
Nasci em pecado.
E "Todos pecaram..."
mas as pedras chegam à apenas alguns.
Sinceramente, Senhor,
sou
uma pecadora.
Sinceridade...
e quem acreditará?
e será suficiente?
Então me arrependo
peço misericórdia a Deus.
Natureza pecaminosa
é a minha.
Não participo da santidade,
não estou entre os santos,
por isso, peço perdão.
Sou dos que tremem diante da glória.
Não sei ser santa, e
Senhor, como é difícil
tentar ser.
Sim, sou pecadora
e em mim jogam milhares de pedras.
Misericórdia, Senhor.
Misericórdia...
Só que não é você,
Senhor,
quem me joga pedras.
Elas não vem de cima, mas me atacam nas pernas
machucam
meus pés.
Algumas acertam na altura do tronco,
barriga,
seios
- os quais chamam imundos.
As pedras vem dos lados, Senhor.
São os outros quem atiram.
Estão do meu lado
em volta de mim.
De mim querem tampar minha vergonha
e querem também que eu não chore,
afinal, estão eles no direito deles de
reagir atacando
ao que é anormal, diferente,
ao que ninguém esperava
ou imaginava
ou entende.
O que eu fiz, Senhor?
Pequei.
Peço perdão.
Sou pecadora
e estou sangrando.
com as cicatrizes que não fecham
com machucados novos
- das pedras que me jogam -
que insistem em abrir.
Sou uma pecadora, Senhor
Nasci em pecado.
E "Todos pecaram..."
mas as pedras chegam à apenas alguns.
Sinceramente, Senhor,
sou
uma pecadora.
Sinceridade...
e quem acreditará?
e será suficiente?
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